Quem perdeu essa viagem terá a chance de conhecer um pouquinho da época em que os trilhos eram o principal meio de transporte de massa, e apoiavam rodas poderosas que arrastavam a riqueza do Estado. A cada estação a balbúrdia de crianças e pais que vendiam bolo, pastel, peixe frito, chipa. E assim ia, num sacolegar sem fim batendo desigual, horas e horas até chegar a Corumbá, passando pelo Indubrasil, Palmeiras, Piraputanga, Camisão, Aquidauana, Miranda, Albuquerque, Taunay, tantas outras. Dentro do trem os garçons carregavam refrigerantes embutidos no avental, sob olhares pidões das crianças. Pelas janelas entravam o ar com cheiro de guavira do Cerrado, ou a fuligem das queimadas, sujando tudo. Mas ninguém se importava.
O apito era o aviso de chegada e o adeus de partida. Não há como resistir ao charme do trem, que por décadas passou de moderno e útil a obsoleto, oneroso, por fim deficitário, até cessar o transporte de gente e continuar só a transportar grãos e minério.
Era, sobretudo, democrático. Transportava polÃticos, empresários, mascates, donas de casa, velhos e crianças e até caixas de galinha e alimentos. Mas havia nele a mesma distinção de classes que configura a sociedade. Os abastados ocupavam o vagão ‘de primeira’. Pobres, trabalhadores em geral e funcionários da antiga Noroeste do Brasil, seguiam no ‘de segunda’. Entretanto, todas as classes sociais tinham encontro marcado no vagão-restaurante.
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