WASHINGTON - Mais conhecida por seus lobistas do que por uma culinária própria, a capital americana recompensa os turistas que circulam por suas ruas com a possibilidade de um passeio barato por pratos de diversas influências, da cozinha creole à cubana, e com ingredientes refinados, como lagosta e ostra. Basta encontrar as dezenas de food trucks (caminhões convertidos em lanchonetes itinerantes) que alimentam diariamente funcionários públicos, assessores parlamentares e trabalhadores do setor privado por menos de US$ 10, que podem ser pagos, na maioria das vezes, com cartões de crédito e débito.
Mais de 30 dessas cozinhas itinerantes estão reunidas em uma associação (dcfoodtrucks. org), e o adesivo Food Trucks Association é o passaporte para fugir de roubadas. Dois lugares próximos a pontos turísticos da capital são paradas obrigatórias de parte dos caminhões todos os dias: a Franklin Square (a quatro quadras da Casa Branca, estação McPherson Square do metrô) e a esquina da Rua 7 com a Avenida Maryland (estação L’Enfant Plaza).
As surpresas costumam ser boas. O Fojol Brothers, um dos primeiros e mais famosos, promete um "carnaval culinário" com as especialidades indianas temperadas em curry, em pratos generosos por US$ 8. A concorrência é acirrada com os reis do kebab Tasty Kbob e da comida árabe DC Ballers. Nos dois casos, sanduíches e pratos completos custam entre US$ 6 e US$ 9.
Opção mais leve, o Big Cheese vende como água, a US$ 6,50, sanduíches como o Midnight Moon, de queijo gouda de cabra e cebolas caramelizadas em pão multigrãos. Para acompanhar, limonada com mel a US$ 2,50. Fila e espera de dez minutos não tiram o bom humor de nenhum cliente do Red Hook Lobster Pound, onde a pedida é o Maine Lobster Roll, sanduíche de lagosta com maionese temperada a US$ 8.
Para os que passaram a manhã descobrindo os museus do The Mall, a dica é não cair na tentação de uma tradicional rede de fast food e escapar das barraquinhas que se limitam ao quarteto hot dog-pizza-pretzel-sorvete. Apenas uma quadra atrás do Museu Aeroespacial, nas cercanias do Capitólio, a exploração dos sabores continua.
Num grande L na esquina da Rua 7 com a Avenida Maryland, pelo menos dez trucks estacionam diariamente. Na última visita do GLOBO, o turista podia degustar, por exemplo, o sanduíche cubano clássico, de porco na baguete, por US$ 8 (no El Floridano); encarar cordeiro ou frango com arroz e salada por US$ 9 (no Burritos on the Run) ou experimentar jambalaya, comida creole da Louisiana com inspiração caribenha, por US$ 8, a porção inteira, e US$ 4, a meia, (no The Cajunator, onde o prato de ostra sai a US$ 12).
Em Nova York, hot dog ‘de rua’ por Daniel Boulud
A primeira coisa que chama atenção para o carrinho do New York’s Best Halal Food, na esquina da Rua 53 com a Sexta Avenida, é a extensa fila, que na hora do rush do almoço passa fácil de 15 pessoas, inclusive vários engravatados dos escritórios de Midtown. Qual o segredo de tanto sucesso?
— Somos imbatíveis na qualidade dos ingredientes, especialmente dos nossos molhos. O vermelho é feito com 15 tipos diferentes de pimenta. É provar e discar 911 (número para chamadas de emergência) — brinca o egípcio Moustafa Hegazy, de 39 anos, há 14 anos à frente de uma equipe de "pilotagem" dos kebabs.
Os kebabs e falafels preparados por Hegazy são uma das inesgotáveis fontes de calorias e deleites de nova-iorquinos e turistas que, por pressa ou opção, recorrem à street food em Nova York. A temporada de primavera/verão é a ideal para explorar essa modalidade gastronômica, já que os carrinhos e caminhões oferecendo todos os tipos de guloseimas, salgadas e doces, parecem brotar do chão.
Certamente a comida de rua mais famosa de Nova York é o hot dog. Algumas boas opções estão nos trailers em frente ao museu Metropolitan e na praça diante do Hotel Plaza. Outro bom lugar é a rede Gray’s Papaya, com saborosos hot dogs que saem a jato, para se comer de pé, no caminho para a próxima atração. Um dos endereços mais conhecidos da rede é o do Upper West Side, na esquina da Broadway com a Rua 72. Dos sanduíches de US$ 2 podemos saltar para a versão gourmet da Épicerie Boulud (a delicatessen/padaria/lanchonete de Daniel Boulud, um dos melhores chefs da cidade), na esquina de Broadway com 65, onde a iguaria custa US$ 7,50.
Mas a amplitude da experiência gastronômica da street food nova-iorquina vai bem mais longe que uma variedade de hot dogs. Empresas especializadas organizam tours e sites como o newyorkstreet food.com oferecem mapas com a localização dos melhores vendedores de comida de rua.
Choripán, morcipán e outros assados em Buenos Aires
Programa tão clássico quanto um jogo do Boca Juniors contra o River Plate é comer um belo choripán antes das partidas de futebol em Buenos Aires. Nos arredores dos estádios da capital argentina o aroma das carnes assando nas parrillas atraem os amantes de um bom churrasco. Podemos encontrar todos os cortes típicos do país sobre as grelhas, mas a pedida mais tradicional é mesmo o choripán, que tem o nome derivado das palavras "chorizo" (linguiça) e "pan" (pão). Em locais mais populares, como a feira dominical de Mataderos, a iguaria pode custar apenas 3 pesos (cerca de R$ 1,50).
Um dos segredos, além da qualidade do embutido e do pão, é o molho chamado chimichurri, feito com cebola, alho, ervas, pimentas, azeite e vinagre, que muitas vezes é apresentado em versões mais ou menos picantes.
Para os apreciadores das achuras, que são os embutidos e miúdos que geralmente fazem parte das parrilladas completas da Argentina, vale pena investir no morcipán, versão do sanduíche preparada com morcilla, uma linguiça feita com sangue, que igualmente fica deliciosa quando regada com bastante chimichurri picante.
‘Dois pastel’ na feira de SP
Não há comida de rua mais popular em São Paulo do que os pastéis de feira. São mais de 730 pasteleiros, que se revezam nas 888 feiras da cidade, e chegam a vender dois milhões de pastéis por semana. O quitute é tão popular que a prefeitura da capital realiza há três anos o concurso "O melhor pastel de feira de São Paulo". A população vota nos seus preferidos e um júri de chefs de cozinha e críticos de gastronomia escolhe o melhor entre os dez favoritos. Ano passado, ganhou a pasteleira Maria Yonaha, dona da barraca Pastel da Maria, que vende na feira da Praça Charles Miller, no Pacaembu.
Mas ninguém precisa ir ao Pacaembu para provar deliciosos pastéis. Toda a feira de rua tem o seu, mais ou menos nos mesmos padrões. Na Alameda Lorena, nos Jardins, a Barraca da Regina vende aos domingos pastéis espetaculares entre R$ 3,50 (o de palmito com catupiry, carne e queijo simples), R$ 4 (carne seca com queijo ou bacalhau) e R$ 4,50 (carne com ovo). O carro-chefe é o de camarão com catupiry (R$ 4) e os pastéis, enormes, valem por uma refeição. Pelo quitute, dondocas e seus cãezinhos não se importam em se sentar nos banquinhos de plástico e socializar com os feirantes numa pausa para o almoço na companhia de um bom caldo de cana.
ROMA - Tão importante quanto ver a Capela Sistina, visitar o Coliseu e passear por algumas da mais belas praças e ruas do mundo é saborear a maior especialidade da cozinha rápida romana, as pizzas. Elas estão por toda a cidade eterna, e mesmo nos pontos mais turísticos é possível comer um belo pedaço de massa coberta com ótimo molho de tomate, nos sabores mais variados, como as servidas na loja Forno, a poucos passos da Fontana di Trevi, onde bastam 4 euros para comprar uma porção suficiente para um almoço ligeiro sem deixar ninguém com fome.
Até nos trailers espalhados pelas áreas turísticas encontramos boas pizzas. Mas existem endereços de referência que devem constar dos roteiros gastronômicos por Roma.
— Comemos boas pizzas al taglio, cortadas na hora e vendidas a quilo, por toda a cidade. Mas existem aqueles lugares acima da média, como o clássico Antico Forno Roscioli, que representa a tradição. Recentemente foram inaugurados novos endereços, como a 00100 Pizza, de perfil mais inovador, com coberturas diferentes. Outra boa pedida é a Pizzarium, que eu classificaria como gourmet, para muitos a melhor atualmente — diz o italiano Nicola Massa, ex-crítico do guia "Gambero Rosso", o principal do país.
Fast food na capital da alta gastronomia
Nas ruas da capital francesa, pode-se degustar crepes, sanduíches de baguete ou kebabs, mas um novo ingrediente incorporado à paisagem da street food parisiense tem atraído centenas de esfomeados curiosos. Na contramão da tradição francesa, a sensação culinária do momento em Paris é uma caminhonete ambulante, a primeira da cidade, cuja especialidade é... hambúrguer. O carro-chefe do fast food americano se tornou atração do menu de rua da capital da gastronomia pelas mãos de uma americana de Los Angeles, Kristin Frederick, 31 anos.
Amante da culinária francesa, a chef californiana cursou a prestigiada escola de cozinha Ferrandi, em Paris, e estagiou no estrelado restaurante Apicius, até o dia em que, numa conversa por telefone com a sua mãe, veio a ideia de criar para os franceses um hambúrguer gastronômico de rua, feito com pão fresco e produtos selecionados.
— Não tinha a mínima ideia se ia dar certo, porque aqui há uma cultura de cafés em terraços, de se comer tranquilamente e lentamente, mas funcionou — diz.
O Le Camion qui Fume serve cinco tipo diferentes de hambúrguer, sempre com uma "surpresa" do dia. Os mais conservadores podem pedir o clássico — alface, tomate, cebola e maionese. Já para os mais ousados há o campagne — com cogumelos selvagens, cebola caramelizada e queijo Gruyère. O preço varia entre 8 euros e 10 euros (com batatas fritas).
A caminhonete estaciona em dias, locais e horários específicos, que podem ser acompanhados pelo site (lecamionquifume. com), pelo Twitter, na página do Facebook ou no Foursquare. Por enquanto, são quatro os seus pontos: Place de la Madeleine; Quai de Valmy (bar Point Ephémère) e Quai de La Loire (cinema MK2), ambos no Canal de Saint-Martin, e Porte Maillot. Prepare-se para a longa fila e a demorada espera, de 30 minutos até uma hora e meia, para poder, finalmente, saborear a especiaria da chef Kristin, que já tem no forno um livro com as suas receitas do Le Camion qui Fume.
Entre bocatas e batatas
Qual é o aroma mais característico da Plaza Mayor, em Madri? Cheiro de bocadillo de calamares. Um bocadillo (bocata para os íntimos) é um sanduíche feito de pão de baguete, e calamar é lula. Neste clássico madrilenho, que costuma ser degustado com uma caña (chope), os anéis de lula são empanados com farinha de trigo e ovo, fritos em azeite de oliva e servidos generosamente em um pedaço de baguete. Há quem acrescente um pouco de maionese e umas gotas de limão, mas, em geral, o clássico dos clássicos não leva nem uma coisa nem outra. O bocadillo de calamares é uma alternativa típica, rápida e barata para almoçar e poder voltar en un plis plas (como se diz, em espanhol, vapt-vupt) a bater perna por Madri.
As lanchonetes mais reputadas estão nos arredores da Plaza Mayor. Ou seja, mais central, impossível. Os garçons que preparam os bocadillos mostram uma prática incrível: o sanduíche fica pronto em um abrir e fechar de olhos. No quesito preço, um bocata também é insuperável. Costuma custar 2,70 euros. Mas, o preço pode subir a 3,50 euros dependendo da lanchonete.
Outra apetitosa opção são as patatas bravas. O pedido "una ración de bravas, por favor" se escuta a toda hora. Para ser exata, 162 mil vezes, em 2011, só nas três lanchonetes da rede Las Bravas, que na década de1960 patenteou a marca como nome do bar e do secreto molho de tomate apimentado. O prato vem com batatas cortadas em pedaços grandes, desiguais e fritas, que recebem o molho de tomate preparado por um dos donos, José Carlos Blanco. Ali, uma porção de batatas bravas custa 3,50 euros, no balcão, e 4,05 euros, na mesa. As três lanchonetes, nos arredores das estações de metrô Sol e Tirso de Molina, ficam nas calles Álvarez Gato 3, Espoz y Nina 13 e na Pasaje Matheu 5.
Salsicha: ideologia alemã com ketchup e curry
Quando a temperatura se aproxima dos 20 graus C, como nesses dias de primavera, os alemães perdem toda a formalidade a que estão acostumados para se deliciar com as comidas de rua, seja a curry- wurst, salsicha assada com ketchup e molho curry, ou o döner kebab, um sanduíche de pão turco recheado por uma mistura de carne e legumes. Nas pausas das óperas de Wagner do Festival de Bayreuth, na Baviera, de 24 de julho a 28 de agosto, homens em traje black-tie e mulheres de longo conseguem o equilíbrio de comer em pé uma salsicha assada pingando gordura, sem talheres, apenas com o pão para segurar a salsicha, e sem manchar a roupa de gala.
A mania nacional de comer salsicha na rua começou nos dias cinzentos do pós-guerra, quando a população vivia faminta e observava, com inveja, como os soldados americanos, que ocupavam parte do país desde maio de 1945, alimentavam-se de bifes com ketchup. Como o bife era muito caro, a dona de casa Herta Heuwer teve a ideia de usar a salsicha para uma nova criação culinária. Ao ketchup, molho popularizado na Alemanha pelos americanos, ela acrescentou o curry e batizou o prato de currywurst (salsicha curry). Quando Herta registou a patente da sua criação, em janeiro de 1959, o prato já havia se espalhado por toda a Berlim Ocidental (na época, a cidade era dividida) e estava a caminho de conquistar toda a Alemanha.
— Currywurst é mais do que um prato, é uma postura ideológica — diz Mario Ziervogel, que prepara a mais famosa salsicha ao curry de Berlim.
Na lanchonete Konnopke, a preferida do ex-chanceler Gerhard Schröder, na Schönhauser Allee 44, no bairro de Prenzlauer Berg, em Berlim, a salsicha custa a partir de 4 euros. Quem visita o museu do Checkpoint Charlie, que fica no ponto de passagem da fronteira que dividia as duas partes de Berlim até 1989, e era destinado apenas aos viajantes estrangeiros, pode visitar também o Museu da Currywurst, com informações e fotos da famosa salsicha alemã.
Se os amantes da currywurst são de todas as faixas etárias, o döner kebab, que começou a ser vendido em Kreuzberg há 40 anos, é consumido sobretudo por jovens alemães. O sanduíche custa mais ou menos o mesmo preço da currywurst ou bratwurst (a salsicha servida com um pãozinho). Só em Berlim, há mil pequenos restaurantes de döner, muitas vezes apenas uma tenda, parecida com quiosque, sem lugar para sentar. Segundo a federação dos produtores de döner, o sanduíche turco concorre hoje com a rede de lanchonetes McDonald’s, com um volume de negócios de 3,5 bilhões de euros.
Croquetes originais, agora em máquinas
Eles não são estranhos às mesas brasileiras. Mas isso não significa que sabor dos croquetes holandeses, os originais, não possa nos surpreender. E chances para prová-los não faltam em Amsterdã. Em todo canto, há uma plaquinha da Febo — uma rede que surgiu em 1941. Fast food é isso, e pode ser saboroso. Nas unidades menores, nem se vê um funcionário. Somente diversas portinhas para os compartimentos de cada croquete. Inserindo 1,50 na máquina (parecida com aquelas de refrigerante), a portinha se abre automaticamente — a novidade foi lançada em abril deste ano, quando a identidade visual das lanchonetes também foi renovada.
A rede vende vários tipos de salgadinhos, de hambúrgueres a frikkadels (uma espécie de almôndega típica da África do Sul) e outras misturas mais incomuns. Quer um exemplo? Existe uma espécie de croquete recheada de noodles. Os croquetes imperam. Há três tipos: o de bife holandês, o de vitela e o de saté (tempero indonésio). Os três podem vir como recheio de um sanduíche acompanhado de muita mostarda. A base dos croquetes originais é o ragu (carne picada e temperada), a que se acrescenta uma mistura de farinha com manteiga, temperos (eles só divulgam a salsa), vegetais e carne. Depois, os croquetes ganham uma cobertura de farinha de rosca e clara de ovo.
Com a rapidez do novo sistema de vendas, só se pega fila nas lojas nas madrugadas, principalmente na movimentada região da Leidseplein. Sim, porque o Febo é um dos preferidos para aquela parada após a festa. A gastronomia holandesa, afinal, não é das mais consagradas pelo mundo. Mas eles sabem fazer bem um delicioso acompanhamento para suas ótimas cervejas.
Combinação heterodoxa
Na hora de comer na rua em Copenhague, prepare-se para misturas pouco ortodoxas. Não, não estamos falando do Noma, o inovador restaurante que é símbolo da nova e badalada gastronomia do país. Trata-se do dinamarquês hábito de "harmonizar" cachorro-quente com achocolatado, praticado diariamente por gente de todas as idades nas muitas carrocinhas espalhadas pelas esquinas e praças da cidade. O lanche é barato, perto dos altos preços de Copenhague: cerca de 40 coroas dinamarquesas (R$ 13,75). Para uma experiência que é a cara da cidade, uma das capitais mais "verdes" do mundo, procure o DOP, onde a combinação é vendida na versão orgânica, inclusive a bebida. Fica em frente à torre Rundetaarn, um dos principais pontos turísticos do centro.
TÓQUIO - Uma das maneiras mais deliciosas de se conhecer a cultura de um lugar é explorando seus pratos típicos. E a cozinha de rua se mostra um dos meios mais autênticos de se fazer isso, de forma rápida, econômica e muito prática, já que essas iguarias estão por toda parte. Traçar hot dogs em Nova York e pizzas em Roma são programas clássicos que unem moradores e turistas. Nos Estados Unidos, os food trucks estão em alta, servindo de receitas cubanas a kebabs. E a Ásia é referência no assunto, com mercados abarrotados de comensais que saboreiam pratos típicos, como o dim sum, em Hong Kong, ou os espetinhos de escorpião frito, em Pequim. A seguir, apresentamos uma seleção de lugares para aproveitar esse saboroso modo de interagir com um povo.
Churrasquinho de polvo e chá de tapioca no caldeirão asiático
Por mais que a maior parte da Ásia esteja mudando rapidamente — e nada simboliza melhor essa transformação do que o crescimento econômico da China — tem algo que continua igual: os prazeres da comida de rua. Vendidos em mercados sempre lotados, em barracas, carrinhos ou trailers espalhados pelas cidades, os pratos típicos representam uma chance única de entender a alma e a cultura de cada região. É verdade que não dá para encarar qualquer espeto de gafanhoto que cruze o seu caminho, mas também não é possível conhecer lugares como o Vietnã e a Malásia sem prestar atenção aos tabuleiros nacionais. "Para o povo, a comida é o paraíso", já dizia um velho provérbio chinês.
Talvez as cidades chinesas proporcionem o mais profundo mergulho gastronômico no universo da comida de rua oriental. O turista ocidental, provavelmente, não conseguirá identificar a esmagadora maioria dos quitutes vendidos, e a combinação de aromas nem sempre é prazerosa. O ideal é explorar as barraquinhas com um guia ou morador para não comprar gato por lebre. De qualquer maneira, os sabores exóticos, as cores, a diversidade e os ingredientes dos quais nunca ouvimos falar tornam a jornada fascinante. Quem conseguir sobreviver ao odor do tofu fermentado (chou doufu, uma iguaria bastante popular), pode experimentar, por exemplo, um baozi, ou bao, pãozinho assado no vapor, que leva todo tipo de recheio: o mais tradicional é a carne de porco.
Nas ruas e nos mercados de cidades como Xangai e Pequim, a comida lembra muito pouco o que conhecemos no Ocidente por culinária chinesa. Esqueça o frango xadrez. Churrasquinho de polvo, sopa de barbatana de tubarão e escorpião frito são itens comuns em todos os cardápios. Um bolinho de pasta de arroz enrolado em folha de bambu, o zongzi, também é muito tradicional. Observar os vendedores amarrando o petisco em forma de triângulo — tarefa complexa — já vale a expedição gastronômica. A Wangfujing Street, em Pequim, é um bom começo para quem quiser se aventurar.
Em Taipé, capital de Taiwan, os mercados noturnos estão no topo da lista de programas obrigatórios. É ali que muitos dos moradores jantam e, mais uma vez, a variedade deixa os visitantes tontos. As aparências e os nomes enganam. Barraquinhas anunciam "ovos de sapo" — coisa que não soa nada bem — mas na verdade estão vendendo inofensivas bolinhas de tapioca. São usadas para pudins ou para os famosos "bubble tea" ou "pearl tea" — chás bem doces, que levam creme, polpas ou leite — uma bebida que já se espalhou por outros continentes, levada pelos imigrantes de origem chinesa.
Em Hong Kong, os mercados noturnos também são uma atração tanto para os cidadãos locais quanto para os estrangeiros. O Lady’s Market e o Temple Street Market são dois pontos permanentemente cheios, onde os produtos falsificados dividem o espaço apertado com barraquinhas de lanches rápidos e restaurantes mínimos. O guia Michelin, que começou a ser publicado em Hong Kong em 2008, reconheceu a excelência da culinária local, mas não são apenas os estabelecimentos mais caros que oferecem o gostinho da cidade. Hong Kong é considerado o melhor lugar do mundo para se comer dim sum. Os restaurantes populares, muitos deles com mesas e cadeiras nas ruas, ficam cheios a qualquer hora do dia e não adianta procurar a fila. Fique de olho nas mesas que estão terminando a refeição e sente-se — sem medo de parecer um troglodita — assim que os fregueses se levantarem. É a lei da rua e um dim sum com chá de jasmim compensa o estresse da disputa por um lugar ao sol.
Já a comida de rua vietnamita, em geral acompanhada por molhos ao mesmo tempo picantes e adocicados, está entre as grandes obsessões do divertidíssimo chef, escritor e apresentador de TV Anthony Bourdain — um apaixonado pela baixa gastronomia mundial. Os prédios coloniais e a baguete — heranças da ocupação francesa — resistiram a guerras, mas as principais marcas da fascinante Hanói são o caos no trânsito e o cheiro de comida. Os moradores adoram fazer suas refeições nas ruas, sentados em banquinhos espalhados pelas calçadas. Ao redor dos templos, grupos enormes rezam e, depois, comem juntos.
Nem todo mundo é tão destemido quanto Bourdain, mas se você tiver que escolher pelo menos um prato vietnamita, tente o mais famoso deles, o pho bo. A sopa de macarrão de arroz, uma receita típica de Hanói, tem sempre ervas frescas e pode vir com frango ou carne vermelha. É um prato muito comum no café da manhã, e que acaba com qualquer cansaço de viagem. Os restaurantes mais sofisticados têm no menu, mas são os vendedores de rua que fazem o prato considerado mais original.
Na Malásia, a diversidade étnica se reflete em sua culinária nacional e nas ruas de Kuala Lumpur ou em cidades menores, como o balneário de Langkawi, onde os vendedores fazem a festa. A mistura de China e Índia produz uma série de receitas aromáticas e baratas. Dá para comer com a mão — como fazem os malaios — e as barraquinhas de rua oferecem, em geral, espaços comunitários com mesas e cadeiras de plástico que pertencem a quem chegar primeiro. Bolinho frito de batata doce é um típico snack local. Arroz frito, pão frito, frutos do mar fritos — a Malásia engorda. Mas mesmo que estômagos mais sensíveis não estejam preparados para a experiência, percorra os mercados de rua nem que seja para fotografar as frutas que poucos brasileiros saberiam identificar.
Os hawker centers — praças de alimentação popular — são um conceito comum tanto na Malásia quanto em Cingapura. Há guias especializados em listar os melhores pontos. Os bons hotéis também sabem indicar os lugares mais conhecidos. Já foram complexos imundos, sem nenhum tipo de higiene, mas nos últimos anos a fiscalização ficou mais severa, principalmente em Cingapura. Na cidade-Estado, há mais de cem centros do gênero, onde culturas e pratos indianos, chineses e malaios convivem sem choques.
No Japão, tudo é um pouco diferente. Obcecados por limpeza e pela qualidade dos alimentos, os japoneses são cuidadosos com a comida à venda nas ruas. O onipresente sushi pode ser comprado em qualquer loja de conveniência ou em pequenas lojinhas especializadas, que raramente têm mesas a oferecer. A ideia é comprar e comer em casa, no escritório ou em algum parque. Andar pelas ruas mordendo alguma coisa — como um sanduíche — não é hábito visto com bons olhos. Fileiras de barraquinhas e carrinhos de comida feita na hora são mais comuns em festivais, principalmente no verão e na primavera, a época mais aguardada pelos japoneses, quando as cerejeiras estão em flor.
Numa metrópole como Tóquio, há refeições para todo tipo de orçamento, das três estrelas no Michelin aos deliciosos yakitoris (espetinhos), muitas vezes feitos em grelhas de estabelecimentos minúsculos. Outro prato rápido, adorado no país, é o okonomiyaki — uma espécie de panqueca que pode levar de tudo um pouco, feita na chapa. É um espetáculo gastronômico: uma montanha que pode incluir repolho, camarão, ovo, maionese e carne de porco vira uma panqueca achatada e muito gostosa. É feia, mas é famosa. E, depois dela, você nunca mais acreditará na tese de que comida japonesa é levinha.